quinta-feira, 26 de julho de 2012

Cidade das luzes brilhantes.


~Conto 1
           -Faz frio aqui.
            -Você fala como se fosse novidade.
            -E você fala como se não sentisse.
            A segunda olhou para a primeira com o canto do olho, sem se dignar a mover-se.
            -Lá se vai Madame Gertaux. – continuou a segunda – Olhe que vestido maravilhoso ela está usando!
            -Não gostei.
            -Ah, Madame Roches! Faça-me o favor. Isso tudo é só inveja?
            -Não é uma questão de inveja. É questão de princípios. Nós duas sabemos dos homens de onde veio o dinheiro para esse vestido. E nós duas sabemos quantas pessoas poderiam escapar à morte apenas com metade do pano que o compõe.
            As duas estavam à beira da rua, fazendo o que lhes restava fazer: assistir a vida dos outros e a própria escorrendo e congelando. O vento varria as ruas parisienses, e a cidade reluzia às vésperas do Natal. Tons de vermelho, verde e dourado da festividade contrastavam com as nuances de cinza já intrínsecas a paisagem da cidade. Cavalos trotavam carregando gordos carroceiros, cheios de mercadorias, especiarias e alimentos especiais para as mesas dos abastados; velhas imploravam por moedas, os rostos secos com lágrimas outrora molhadas, agora congeladas pelo frio.
            -Quem morreu, morreu. – retrucou a segunda – Nada se há a fazer. Que haja algum lucro nisso pelo menos.
            -Sabe, Madame Sansvie, me pego me perguntando várias vezes se há qualquer sentimento dentro de você.
            -Defina sentimento. – provocou Sansvie – Eu tenho perspectiva de um futuro com mais glamour do que continuar estagnada ao seu lado.
            -Aprenda a andar primeiro, sua prepotente – rosnou Madame Roches – e depois cogite fugir de mim.
            Sansvie permaneceu em silêncio por um tempo, limitando-se a encarar o espaço a sua frente, até finalmente responder.
            -Não sei como você consegue manter sentimentos, levando uma vida como a nossa.
            Foi a vez de Roches pensar antes de retrucar.
            -Não é uma questão de sentir ou não. É uma questão de se deixar atingir.
            -Você vê tanto quanto eu o modo que eles nos olham, Roches. – vociferou Sansvie. Sua voz transparecia uma mágoa guardada há muito tempo. – Você vê o desprezo por nós. O amargo lembrete de que a vida perfeita deles não é tão perfeita assim, porque nós somos o espinho na carne deles. O incômodo. O câncer na vida da bela Paris!
            Sansvie berrava agora. A ironia é que ninguém sequer virou o rosto em sua direção, como que comprovando o que ela acabara rasgar aos céus europeus.
            Ela riu. Um riso triste, seco, amargurado.
            -Viu? Está vendo? Não há o que sentir. Não há o que valha a pena sentir. Não por isso.
            Ela ainda estava imóvel, embora Roches pudesse senti-la tremendo por dentro, com a mais pura dor.
            -A questão não é sentir ou não, Sansvie. – Ela respondeu, mirando o infinito. – A questão é quanto você se deixa atingir. Sua alma é sempre tão frágil quanto você acredita. Há uma grande diferença entre ter um coração de pedra e não ter coração algum.
           
Elas ouviram alguém subindo as escadas, e logo cessaram a conversa. Um homem de vestes simples adentrou o campanário, tocando o sino riquíssimo com as costas da mão, e se dirigiu à janela leste do lugar, de onde jurara ter ouvido vozes. Aproximou-se do peitoril, esticando a cabeça para fora, para ver a Cidade das Luzes em toda a sua glória e desgraça.
            Olhou para as duas gárgulas gigantescas que podiam ser vistas à distância, e sorriu. Algo na expressão delas às vezes parecia lhe dizer que elas eram mais humanas do que ele mesmo.





Nenhum comentário:

Postar um comentário